Monday, March 06, 2006

O gato, o pardo e o leopardo

Por falar em melancolia, e por ter visto tamanha obra recentemente, ocorre-me uma das suas imagens indeléveis, perenes - o próprio, na casa de banho surrealista, no baile, duas lágrimas após a valsa com a Cardinale, a absoluta melancolia masculina da juventude, da concretização, da virilidade, da inscrição, da não morte.

A palavra perene invoca uma outra cena, com um diálogo magnífico - no escritório com Chevalley, sobre o suposto desejo de esquecimento idiossincrático dos sicilianos e relativamente ao qual, entre os vários tragos finais do filme, torna-se praticamente clara a projecção metonímica da personagem. Através do conhecimento de que se trata de um acto menos altruísta e desinteressado do que parece ao interlocutor, Visconti deixa-nos, à partida, na confusão entre a hipérbole do pretexto para a recusa, com uma dimensão de persuasão auto-infligida, e uma denúncia final do carácter humano do herói - em ambos os casos é brilhante, e a resposta, agora que penso, surge no final da cena, através da inaudibilidade para o interlocutor intra-cénico da frase '... continuaremos convencidos que somos o sal da terra'.

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